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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os Novos Beatles: Um Laboratório de Música Experimental



















Seleções do Reader's Digest (Fevereiro de 1968)

Sem perder o alegre anarquismo que ajudou a revolucionar o estilo de vida da mocidade de hoje, o conjunto elevou-se a um nível superior de desenvolvimento, transformação, experimentação... e arte.


A capa de um recente LP intitulado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band é a fotomontagem de uma sepultura.  Multidão curiosa essa: Marilyn Monroe está ali. E estão também Edgar Allan Poe, Lawrence da Arábia, Mae West, Sonny Liston e oito Beatles.
Oito? Bem, quatro são bonecos de cera, os Beatles como estão na lembrança da maioria, com cabelos compridos bem escovados, ternos escuros e rostos que parecem de petulantes meninos de côro. Os outros quatro Beatles estão mais que vivos: magros, com aspecto de hippies, bigodudos, envergando vistosos e bizarros uniformes, com os olhos a brilhar de uma consciência tocada de uma ponta do antigo espírito travesso. Quanto à sepultura em primeiro plano, vê-se nela o nome Beatles escrito com flores.
Zombando de si mesmos, o que é típico deles, os Beatles proclamam que apagaram a sua velha personalidade a fim de darem lugar aos novos Beatles. E há nisso alguma verdade. Ricos e consagrados o bastante, hoje, podendo continuar a repetir-se – ou simplesmente não fazerem mais nada – eles estão, em vez disso, criando alguns dos sons mais originais, expressivos e musicalmente interessantes que se ouvem atualmente na música popular.
Músicos sérios estão ouvindo os Beatles e apontando sua obra como um marco histórico no progresso da música. Ned Rorem, compositor de algumas das melhores canções eruditas da atualidade, afirma que a obsedante composição dos Beatles intitulada She’s Leaving Home (“Ela Esta Deixando a Casa”) – uma das 12 canções do álbum Sgt Pepper’s – “compara-se a qualquer das canções que Schubert escreveu”. A opinião do maestro Leonard Bernstein é igualmente elogiosa: ele cita Schumann. Como diz o musicólogo Henry Plesants: “Os Beatles estão onde esta a música no momento.”

Hábeis Colagens. Como todos os bons artistas populares, os Beatles têm a capacidade de destilar o estado de espírito do seu tempo. As músicas alegres de Gilbert e Sullivan retratavam a empáfia do Império Britânico vitoriano; a urbanidade de Cole Poter foi um tônico admirável para as ressacas da década de 1930; as baladas de Rodgers e Hammerstein refletiram o sentimento e a seriedade da era da Segunda Guerra Mundial. Hoje as hábeis colagens dos Beatles juntam fragmentos de tensão entre as gerações, a solidão da deslocada década de 1960 e o agridoce do amor jovem em qualquer época. Ao mesmo tempo, a sensibilidade que têm para o absurdo é mais aguda do que nunca.
As primeiras músicas dos Beatles tinham exuberância e um ocasional oásis de inesperada harmonia, mas fora disso fundiam-se minotonamente nos desertos calcinados do rock. I Want to Hold Your Hand (“Quero Segurar Tua Mão”), do primeiro álbum dos Beatles – do qual se venderam 5 milhões de discos desde 1964 – tinha uma letra de amor esteriotipada feita para uma melodia sem imaginação. Mas os rapazes logo acharam ridículos os seus sons convencionais e versos infantis. John Lennon, o principal letrista do grupo, começou a aproximar-se do cantar popular norte-americano Bob Dylan. Não foi tanto a intratável cólera de Dylan que Lennon achou interessante como esforço para “dizer as coisas como elas são”. Pouco a pouco, a obra dos Beatles começou a dizê-las assim também. Uma canção deles de 1965, Nowhere Man, “Homem de Nenhum Lugar” (“Não tem opinião, não sabe para onde vai”), perguntava: “Não é um pouco como você e como eu?”
Um abandono ainda mais radical das banalidades do Big Beat (“Grande Ritmo”) se verificou quando o fazedor de música Paul McCartney começou a manifestar um insuspeitavel dom lírico. Em 1965 ele cantou a mais bela das suas valadas, Yesterday (“Ontem”), com acompanhamento de um octeto de cordas – um gênero novo e bem sucedido, o rock barroco. Outra forma ainda, o raga-rock, começou depois que George Harrison se entusiasmou pela música indiana, estudada com o virtuoso indiano do sitar Ravi Shankar, e  introduziu um breve motivo de sitar Norwegian Wood (“Floresta Norueguesa”) de 1965. Quase todos os músicos populares estão atualmente fazendo experiências com o sitar.
Todos os êxitos dos últimos dois anos foram um prenúncio do álbum Sgt Pepper’s, que mais do que qualquer outra coisa dramatiza o brilho dos novos Beatles. Em três meses vendeu-se o espantoso número de 2 500 000 discos – cada um deles uma carga garantida de arrepios psíquicos. Vagamente subordinado a um plano que joga a nova contra a velha geração, o disco fervilha de efeitos eletrônicos da era espacial e letras engenhosas; acima de tudo prova que os Beatles chegaram ao seu florescimento como músicos.

Profetas do “Pop”. Agora que a música dos Beatles se vai tornando mais complexa e difícil, eles estão perdendo alguns de seus fãs mais jovens. Mas os novos Beatles conquistaram um público diferente e muito mais sensível. “De repente”, diz George Harrison, “descobrimos que todas as pessoas que se julgavam acima dos Beatles são fãs deles.” Isso inclui não apenas estudantes universitários, mas também pais, professores e até homens de negócio.
Se a garotada do rock transformou os Beatles em divindades, muitos adultos agora fazem deles profetas de arte pop e tendem a teorizar solenemente o seu significado. O Referendo B. Davie Napier, capelão da Universidade de Stanford, está convencido de que Sgt. Pepper’s “desvenda a sinistra solidão e o terror destes tempos vazios”. O psiquiatra Tom Leland diz que os Beatles “estão falando existencialmente sobre a falta de sentido da atualidade”.

Miados de Imitação. Não faz muito tempo o mundo pop estava estagnado numa calmaria, com cantores brancos sem rumo miando falsificação de música negra! Então, no começo da década de 1960, os Beatles, ao lado de outros grupos ingleses, revitalizaram o rock’n’roll, imitando de perto (e admitindo francamente) os seus criadores negros. E enquanto os Beatles marchavam à frente, semeando inovações próprias, deixavam campos florescentes para que outros grupos os cultivassem.
Mas entre todos os grupos dinâmicos e imaginosos existentes, nenhum até agora conseguiu a originalidade e a força da fórmula dos Beatles, que os elevou à sua posição supramusical. É verdade que os seus flertes com entorpecentes e a atitude escapista que esta no fundo de canções como A Day in the Life (“Um Dia na Vida”) desconsertam muitos fãs, para não falar em pais preocupados. Mas embora os quatro Beatles tenham confessado que tomam LSD ao menos ocasionalmente, Paul McCartney disse: “Não recomendo. Pode abrir algumas portas, mas não é a solução. A gente tem de achar a solução por si mesma.”

Cantar Como é. Quando os Beatles falam, milhões de pessoas escutam e, por mais imaturas que sejam às vezes suas idéias, os Beatles são um exemplo de rejuvenescedora desconfiança da autoridade, desdém pelas convenções e impaciência com a hipocrisia. Os garotos vêem neles uma espécie de destemida honestidade e admiram sua liberdade e largueza de vistas; consideram-nos como seus iguais em condições de tentar qualquer coisa e em quem podem confiar para lhes dizerem o que querem ouvir. Quanto aos pais que são alvo das observações satíricas dos Beatles, parece que são capazes de receber um grande número de golpes diretos e ainda sorrir. Walter Robinson, homem de relações públicas e pai de três filhos, diz “Os Beatles abrem novos caminhos, são uma vanguarda que inspira confiança. Acho bom que meus filhos os compreendam.”
Para evitar confusões, os Beatles mantêm sua vida particular dentro de um labirinto de sebes e muros altos, guardas de segurança e telefones secretos. De vez em quando fazem surtidas a boates de Londres como “Bag of Nails” e “Speakeasy”, mas têm de planejá-las quase militarmente, levando em conta o fator surpresa e um caminho pronto para a retirada no caso de serem envolvidos pela multidão. Fora disso, vivem num luxo tranqüilo – como bem  podem fazer, considerando-se a renda de discos, filmes, televisão, músicas editadas e direitos autorais, bem como de vários contratos para a produção de mercadorias relacionadas com eles. Os cálculos mais modestos situam a fortuna líquida de Harrison e Ringo Star em três milhões de dólares cada um e a de Lennon e McCarteney em quatro milhões de dólares (por causa do que ganham a mais como compositores).

Dentro do Labirinto. Os três Beatles casados e suas esposas tão parecidas possuem grandes casas em Weybridge, elegante subúrbio residencial, a 40 minutos de Londres. John, de 27 anos, e sua esposa Cynthia e Julian, filho do casal, moram numa mansão em estilo Túdor com piscina. Ladeira abaixo, fica Sunny Heights, bela casa de 15 peças, onde Ringo, hoje com 27 anos, se compraz na vidinha doméstica em companhia da mulher, Maureen, e de dois filhinhos, Zak e Jason. George, com 24 anos, e sua esposa, Patti, vivem perto  num grande bangalô branco com fachada coberta de desenhos colorifos, flores e obras abstratas. Paul, com 25 anos, solteiro, vive no próspero bairro de St. John’s Wood, na cidade, numa casa de muros altos, curiosamente decorada, para um gosto Beatles, com pitoresco bom gosto, inclusive com uma antiquada toalha rendada na mesa da sala de jantar.
Os Beatles mantêm permanente contato entre si, entrando e saindo nas casas uns dos outros como se formassem uma só família – o que, de certo modo, formam. A amizade entre eles é um laço de extraordinária intimidade e simpatia. Não só estão unidos pelo simples fato de serem Beatles, mas também têm em comum a sua origem na baixa classe média de Liverpool coberta de fuligem e sombras vitorianas. Paul, filho de um vendedor de algodão, e John, que foi criado por uma tia depois que o pai abandonou a família, tocavam juntos desde 1955. George, fiilho de um motorista de ônibus, uniu-se a eles em 1958. Dois anos depois, conheceram Ringo (Richard Stankey), filho de um estivador.
Tocar numa orquestra em Liverpool oferecia não apenas satisfação musical, mas também um meio de ser alguém – especialmente com as garotas locais. E depois que se ligaram a Brian Epstein, que habilmente dirigiu a carreira deles até que morreu em agosto do ano passado, foi um meio de sair de Liverpool.
Em conjunto, o quarteto é uma tomada elétrica de quatro saídas, cada qual dando centelha ao circuito à sua maneira. Paul, extrovertido e loquaz, irradia um brilho de simpatia. É quem resolve as coisas, explicador, tão agradavelmente simples na vida como na composição de melodias. George, outrora o menos visíveis deles, concentra agora as suas energias na música e na filosofia da Índia. É o melhor instrumentista do conjunto e sempre tocou primeiro violão. Ringo, inteiramente despretensioso, é também o grande temperamento cômico inato do grupo. Dos quatro, é o catalisador e também o realista. O mais misterioso de todos – e talvez o mais importante – é John, o elemento criador. Espírito mais ponderado e forte do que os outros, vem se mostrando nestes últimos tempos estranhamente pensativo e reservado.

Quadros sonoros. Desde que os Beatles, há cerca de um ano, deixaram de excursionar, cada qual deles teve mais liberdade para dedicar-se às suas atividades individuais. John recebeu um dos principais papéis no próximo filme de Richard Lester intitulado How I Won the War (“Como Ganhei a Guerra”) e Paul escreveu uma boa partitura musical para o recente filme The Family Way (“Vida de Família”). Mas a atividade mais compensadora é ainda a que exercem em grupo – gravar discos.
Transformaram-se de uma equipe de representação “ao vivo” num grupo experimental de laboratório e fizeram do estúdio de gravação o seu pandemônio eletrônico particular. Para conseguirem os estranhos efeitos de Sgt. Pepper’s, gastaram até 20 horas com um número, trabalhando às vezes a noite inteira.
Alguns observadores prevêem que os “quadros sonoros” resultantes venham a ser o veículo através do qual os grupos de rock poderão fundir-se com a música erudita contemporânea. Robert Tusler, que ensina música do século XX na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, já diz que “os Beatles adotaram muitos dos conceitos eletrônicos da música que foram explorados pelos compositores alemães do grupo de Colônia. Fizeram uma imensa contribuição para a música eletrônica”.
Diante do que até agora conseguiram, seria imprudente contestar George quando diz: “Nós ainda nem começamos. Apenas descobrimos o que podemos fazer como músicos, que fronteiras podemos transpor. O futuro se estende muito além da nossa imaginação.”


Há 45 anos atrás...




















  1. Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band
  2. With a little help from my friends
  3. Lucy in the sky with diamonds
  4. Getting better
  5. Fixing a hole
  6. She's leaving home
  7. Being for the benifit or Mr. Kite!
  8. Winthin you without you
  9. When I sixty-four
  10. Lovely Rita
  11. Good moning good morning
  12. Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band (reprise)
  13. A day in the life





quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Choque de Gestão governo Aécio Neves - Verdades e Mitos


Fabricio Augusto de Oliveira

Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (1973), Mestrado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (1978) e Doutorado em Economia também pela Universidade Estadual de Campinas. Foi professor-adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1979-1985); professor-adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais (1987-1990), professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas (1985-1998) e professor-visitante da Universidade Federal do Espírito Santo (1996-1998; 2000). Leciona, desde 1998, na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro, em Belo Horizonte. Suas áreas de pesquisa são: Economia do Setor Público, Finanças Públicas, Políticas Públicas, Economia Brasileira e Economia Regional.



Reportagem retirada da Revista Mercado Comum, Set./Out. 2010, ano XVIII, Ed. 209

Choque de Gestão – Verdades e Mitos


1. Introdução

Choque de Gestão foi a expressão cunhada pela administração Aécio Neves (2003-2010) para denominar seu programa de governo. Com este título-fantasia, o programa representava, em sua essência, uma crítica aos seus antecessores, ao mesmo tempo em que descortinava um futuro promissor para o estado de Minas Gerais.

No tocante à crítica, com ele vendeu-se a imagem de que a administração estadual padecia de uma gestão altamente ineficiente, que os governos anteriores ou não se empenharam em corrigir ou mesmo contribuíram para piorar, o que explicaria a situação caótica de suas finanças e a impotência do governo de exercer alguma ação proativa para o desenvolvimento do estado. Quanto ao futuro, a confiança de que, com a sua implementação, o governo do estado, uma vez saneado financeiramente e resgatada sua eficiência na gestão dos recursos públicos, teria condições de pavimentar os caminhos do crescimento e de colocá-lo numa trajetória sustentável.

É essa essência do programa que o atual governo e candidato à eleição, Antônio Anastasia, que foi o seu principal  gestor, destaca quando afirma que com ele objetivou-se "colocar um mínimo de ordem na casa", uma condição necessária para o crescimento, a geração de emprego e a melhoria das condições de vida da população. Nessa visão, tudo se passa como se a "casa" tivesse sido encontrada inteiramente desarrumada pela inépcia de seus antecessores, Eduardo Azeredo e Itamar Franco, seus atuais companheiros e importantes apoiadores de sua candidatura, e de ter sido necessário a "mão salvadora e criativa" do Choque de Gestão para corrigir essa anomalia e recolocar o governo nos trilhos do compromisso com o equilíbrio, com a responsabilidade fiscal e com a eficiência, e a economia do estado  no trajetória do crescimento econômico.

Em 1989, o candidato à presidência da República Mário Covas usou a expressão Choque de Capitalismo com o objetivo de chamar a atenção para o fato de que a livre iniciativa, por não assumir os riscos inerentes aos investimentos privados, tornava-se um grande fardo para o Estadoe prejudicava a população, reduzindo ou mesmo privando-a da oferta de bens públicos, ao drenar parte importante de seus recursos. Por isso, o Choque de Capitalismo seria vital para o setor privado assumir esses riscos e liberar o Estado para o desempenho de suas funções mais tradicionais. Na visão dos governos Aécio e Antônio Anastásia, o Choque de Gestãodesempenha papel semelhante, mas com o governo do estado libertando-se de sua paralisia, com a adoção de uma política de saneamento financeiro e de recuperação de uma gestão eficiente dos recursos públicos, essenciais para o apoio e incentivo ao desenvolvimento econômico e social.

Passados oito anos de sua implementação, neste trabalho procura-se fazer uma avaliação dos resultados com ele alcançados, especialmente nas duas questões às quais se apegam seus idealizadores para vender uma imagem de competência e de sucesso: o saneamento financeiro do estado e o crescimento econômico. Como se verá, com os números em seguida apresentados, o Choque de Gestão nada mais passa de um produto de marketing vendido com  eficiência para a população do estado - e também do país -, e que tem rendido bons dividendos - políticos, econômicos e financeiros - para os que o conceberam, à medida que continua distante, na realidade, de alcançar os principais objetivos a que se propôs.

2. O saneamento financeiro do governo do estado: ilusões contábeis

Desde o primeiro ano de seu primeiro mandato, o governo Aécio Neves imprimiu à sua administração a marca do compromisso com o equilíbrio das contas públicas, etapa considerada indispensável para o êxito de seu programa. Naquele ano, o orçamento aprovado ainda no governo Itamar Franco, elaborado com a previsão de algumas receitas  fictícias, acusava um déficit potencial de R$2,3 bilhões, indicando dificuldades para sua administração. Como paladino de um rigoroso ajuste fiscal, o novo governo implementou, ao longo deste primeiro ano, uma série de medidas, que se encontram relacionadas no Quadro 1, centradas principalmente no corte de gastos, para tentar reverter essa situação. No final do ano, o déficit orçamentário havia sido reduzido para R$228 milhões e tal melhoria serviu de argumento para dar início à construção do mito do déficit zero, que se transformaria na principal bandeira e suposta conquista do governo.


Quadro 1. Governo de Minas: principais medidas adotadas no campo fiscal no âmbito do programa Choque de Gestão

Receitas
Gastos

Programa Modernizador da Receita:

·                    Adoção do Simples Minas
·                    Desoneração tributária de 150 produtos da cesta básica
·                    Simplificação de procedimentos tributários
·                    Inclusão de novas mercadorias no instituto de substituição tributária
·                    Adoção de medidas reativas à guerra fiscal
·                    Intensificação do combate à sonegação

Revisão e elevação das alíquotas do IPVA, ITCD e das taxas;

Melhoria da receita patrimonial (dividendos das estatais estaduais, remuneração dos serviços bancários, administração da rede bancária da folha de pagamento do estado);

Reajuste no valor da Unidade Fiscal do Estado de Minas Gerais (UFEMG);

Incremento das receitas da administração indireta (fundações, autarquias etc.).


Decreto de contingenciamento, em 2003, de 20% das despesas financiadas com recursos ordinários do Tesouro em relação aos valores executados em 2002: redução real de 5,9% das despesas de custo e de 29,2% dos investimentos;

Congelamento do salário do funcionalismo: queda real de 5% das despesas com salários;

Reforma Administrativa do Estado: redução de 30% no número das secretárias, mediante fusão; exclusão de 1858 cargos comissionados;

Revisão geral e extinção de benefícios do funcionalismo;

Redução dos salários do governador, do Vice, dos secretários de estados e dos secretários-adjuntos;

Centralização da folha de pagamento do funcionalismo na Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão;

Criação do sistema de compras do estado por meio de leilões eletrônicos;

Aprovação das Parcerias Público-Privadas (PPPs), com o objetivo de obter recursos para a realização de investimentos.

Na verdade, nem o governo acreditava que poderia obter resultados tão rápidos neste campo. No PPAG de 2004-2007, por exemplo, projetava-se a obtenção de resultados orçamentários positivos, excluídas as contratações de operações de crédito (de dívida) apenas para o último ano, prevendo-se que de todo o seu primeiro mandato continuaria marcado pela continuidade de desequilíbrios fiscais. O resultado de 2003, alcançado graças à política de "caça-ao-gasto" e à obtenção de apreciáveis receitas extra-orçamentárias, despertou, contudo, a nova administração, para a possibilidade de sua instrumentalização como uma conquista da política de austeridade implementada e de competência e zelo do novo governo com os recursos públicos. Afinal, que outro resultado obtido em prazo tão curto seria capaz de traduzir, para uma população descrente dos gestores públicos e dos descalabros orçamentários de muitos governos, tamanho grau de eficiência? Na esteira do Choque de Gestão, o mito do déficit zero começou a ganhar forma e força e a ser tranformado no símbolo de eficiência da administração Aécio Neves, especialmente a aprtir de 2004.

É bem provável que, se mantida a mesma política implementada no primeiro ano, de corte de gastos e de ganhos extra-orçamentários, os resultados do ajuste realizado tenderiam muito rapidamente a esbarrar em limites intransponíveis. Todavia, a retomada  mais exuberante do crescimento da economia brasileira a partir deste ano, ao derramar efeitos altamente positivos para a economia do estado, permitiu à nova administração modificar a equação do ajuste, deslocando o seu principal instrumento para o lado das receitas. Com o forte crescimento dessas, os resultadosorçamentários tornaram-se positivos, já a partir do ano de 2004 (antes, portanto, das projeções realizadas no PPAG de 2004-2007), aparentemente confirmando o sucesso do Choque de Gestão neste campo, como se pode contatar pelo exame da Tabela 1, de acordo com o critérioutilizado pelo governo para sua divulgação. A partir daí, Choque de Gestão e eficiência da gestão pública tornaram-se sinônimos de competência e, num trabalho de refinado marketing, o programa ganhou as páginas da imprensa do país como exemplo a ser seguido pelas administrações públicas de modo geral. Uma análise mais acurada dos resultados contidos na mesma tabela desvela, contudo, tratarem-se os memsos mais de ficção do que de realidade.

Tabela 1. Governo do estado de Minas Gerais: resultado orçamentário e operações de crédito - 2002-2009. (Em R$ mil correntes)
Ano
Resultado Orçamentário, incluídas as Operações de Crédito (1)*
Operações de Crédito (2)
Resultado orçamentário,   excluídas as Operações de Créditos (1-2)*
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
-874.341
-227.873
90.651
221.654
81.127
190.101
623.970
299.296
70.104
21.746
11.739
63.656
252.967
196.302
556.857
1.305.741
-944.445
-249.619
78.912
157.998
-171.840
-6.201
67.113
-1.006.445
 (*) - défict (-); superávit (+)
Fontes> Andrade (2009) e Secretaria da Fazenda de Minas Gerais – Relatórios Resumidos da Execução Orçamentária (RREO), 6º bimestre, 2002-2009

Para vender uma imagem de competência e eficiência, o governo passou a divulgar os resultados orçamentários, que se encontram na primeira coluna da tabela, e que efetivamente se tornaram positivos a partir de 2004. Embora desconhecido pela população de modo geral, qualquer estudante da área de finanças públicas aprende, contudo, desde o início, que este conceito nada significa para a avaliação dos resultados das contas públicas. Isto porque, entre outros motivos, ele inclui, do lado das receitas, os empréstimos e financiamentos realizados pelo governo (ou seja, as dívidas contratadas), podendo, por isso, esconder desequilíbrios em uma situação aparente de equilíbrio. No afã de mostrar resultados positivos, o governo não divulgou este fato e passou a usar este conceito em sua campanha publicitária do déficit zero como o melhor retrato da eficiência de sua gestão.

Excluindo, como se faz na terceira coluna da tabela, os empréstimos tomados anualmente pelo governo, a realidade dos resultados de suas contas começa a se modificar: como se percebe, em apenas três anos (2004, 2005 e 2008) seriam obtidos superávits e, ainda assim, bem modestos, registrando-se déficits nos demais. No acumulado de todo o período do governo Aécio Neves, ou seja, entre 2003 e 2009, o tão propalado equilíbrio fiscal (que o governo continua chamando de déficit zero) transforma-se, com estes ajustes, em um déficit de R$1,18 bilhão, a preços de 2009. Este é, no entanto, apenas um lado da história da farsa do déficit zero.

Com a renegociação da dívida realizada pelos estados com a União no final da década de 1990, com prazo de 30 anos (até 2.028), dos encargos financeiros dessa dívida (atualização monetária pelo IGP-DI + juros reais de 7,5% no caso de Minas Gerais), o contrato exigiu que o governo do estado destinasse 13% de sua receita líquida real (um conceito próximo ao de receita corrente líquida) para o seu pagamento. Ocorre que os 13% costumam ser, via de regra, insuficientes para pagar estes encargos, com o resíduo (ou seja, os encargos não pagos) sendo incorporados diretamente ao estoque da dívida, sem passar, portanto, pelo orçamento. A contabilidade peculiar que surgiu em decorrência dos termos da dívida renegociada com a União também ajuda a mascarar o resultado orçamentário efetivo, à medida que a parcela dos juros nominais que não são pagos não é registrada no orçamento, apesar de constituir uma despesa. Se nele inscrita, como manda a boa técnica orçamentária, ter-se-ia como contrapartida, do lado das receitas, uma rubrica de "refinamento da dívida" (que equivale à de operações de crédito) e, em decorrência, o tão decantado déficit zero transforma-se-ia em desequilíbrio de grande magnitude.

Por isso, como recomenda a boa contabilidade de avaliação das contas públicas, o correto é trabalhar com um conceito que contempla essas questões e faz a apropriação adequada das receitas e despesas do governo, caso das Necessidades de Financiamento do Setor Público (NFSP), nos critérios primário e nominal. A tabela 2 apresenta estes resultados para o período que vai de 2003 a 2009 e, de seu exame, é possível constatar o grande desequilíbrio das contas do governo do estado, ao contrario do que difundiu, desde 2003, sua campanha publicitária.

Tabela 2 . Governo do estado de Minas Gerais: resultados primários e nominal e receita corrente líquida: 2003-2009. (em R$ milhões correntes)

Ano

Resultados*
Receita Corrente Líquida

1/3(%)

2/3(%)
Primário (1)
Nominal (2)
2003
-1.283,4
3.892,5
13.846,8
-9,25
28,07
2004
-1.523,3
2.998,0
16.696,0
-9,12
17,95
2005
-1.928,3
1.556,1
19.550,3
-9,86
7,95
2006
-1.937,1
2.060,9
22.083,4
-9,39
9,33
2007
-2.308,8
2.941,1
23.803,7
-9,69
12,35
2008
-2.971,3
6.122,8
29.242,5
-10,16
20,93
2009
-1.732,7
977,3
29.118,5
-5,95
3,35
Fonte: Secretaria da Fazenda do Estado de MG. Relatórios resumidos da Execução Orçamentária (RREO), 6º bimestre, 2003-2009.  (*) déficit (+); superávit (-)

Como se constata na tabela, o governo tem sido obrigado, por força do contrato da dívida, a gerar apreciáveis superávits primários para honrar o pagamento de parcela de seus encargos, estabelecida em 13% de sua receita líquida real. Essa considerável economia de recursos não tem sido suficiente, contudo, para o pagamento integral destes encargos, fazendo com que a contabilização de seus resíduos, que são diretamente incorporados ao estoque da dívida, garanta a geração de elevados déficits, juntamente com o reconhecimento de outras dívidas (passivos ocultos), que têm garantido uma trajetória de firme e ininterrupto crescimento do estoque da dívida consolidada do governo do estado, como se mostra na tabela 3.

Como se vê na tabela, embora tenha declinado como proporção da receita corrente líquida do governo do estado entre 2003-2009, muito devido ao espetacular crescimento desta no mesmo período (aumento do denominador), beneficiada pela forte expansão da economia nacional e mineira, o estoque da dívida continuou crescendo em velocidade de cruzeiro: em termos nominais saltou de R$33 bilhões, em 2003, para R$59 bilhões, em 2009 (aumento de 80%); em termos reais (descontando-se a inflação), registro-se um crescimento considerável de 15%. Se o governo tivesse conseguido, de fato, realizar um ajuste estrutural de suas contas e zerar o déficit fiscal, como divulgado em sua campanha publicitária, como explicar este crescimento se este decorre, a par do reconhecimento de passivos contingentes, de desequilíbrios orçamentários, mesmo que resultantes da realização de investimentos¹? Só mesmo uma "contabilidade criativa", como a que tem sido desenvolvida pelo governo, seria capaz de transformar este inferno de desequilíbrios em um paraíso de equilíbrio fiscal. Se isso é muito, não é, entretanto, tudo.

¹Na verdade, os principais investimentos realizados pelo governo do estado Aécio Neves não contaram efetivamente com recursos do Tesouro, não se podendo creditar ao suposto ajuste realizado, ao Choque de Gestão, portanto, contribuindo para sua materialização. O Proacesso foi totalmente financiado com recursos do Banco Mundial; o Expominas, a Linha Verde, a Cidade Administrativa e a duplicação da Av. Antônio Carlos, com recursos da CODEMIG, obtidas com a receita de royalties da exploração do nióbio de Araxá.

Tabela 3. Evolução da dívida contratada do Estado de Minas Gerais² - Dezembro 200 - maio 2010. (Em R$ mil correntes)

Data
Dívida a preços correntes (1)
Dívida a preços constantes* (2)
Receita Corrente Líquida (30
1/3 (%)
31/12/2002
32.861,6
51.410,8
12.542,0
2,62
31/12/2003
36.787,2
52.362,9
13.864,8
2,65
31/12/2004
42.336,1
53.699,3
16.696,0
2,53
31/12/2005
43.819,9
54.659,3
19.550,3
2,24
31/12/2006
47.233,6
56.869,5
22.083,4
2,13
31/12/2007
50.458,6
56.984,8
23.803,7
2,11
31/12/2008
56.191,2
57.067,0
29.242,5
1,92
31/12/2009
56.533,4
58.444,4
29.118,5
1,94
31/05/2010
59.113,5
59.113,5
ND
ND
²Não coincide com os dados da Dívida Consolidada Líquida (DCL) publicada pelo governo. Inclui, além da dívida com o Tesouro Nacional, dívidas contratadas junto às instituições financeiras públicas e privadas.
*Valores corrigidos pelo IGP-DI

Embora não seja possível quantificá-los, boa parte dos ganhos atribuídos ao Choque de Gestão nada tem a ver com o seu arcaboço, enquanto outros foram obtidos com o sacrifício do funcionalismo público e de políticas sociais. Entre os primeiros, cabe destacar:

·                    Ganhos extra-orçamentários: do lado das receitas, R$2203 milhões vieram do governo federal relativos ao ressarcimento de despesas do estado realizadas nas estradas federais, negociados no último ano da administração Itamar Franco. A esses ganhos se somaram os provenientes da receita da Constituição de Intervenção no Domínio Econômico sobre os combustíveis, a CIDE-combustíveis, a partir de 2004, fruto da reforma tributária de 2003, e os das anistias fiscais realizadas na administração Aécio Neves. Em 2008, por exemplo, de uma receita da dívida ativa orçada em R$166 milhões, a arrecadação atingiu expressivos R$ 610 milhões, devido à anistia concedida. Do lado dos gastos, o governo estadual deixaria de pagar R$250 milhões à CEMIG, em 2003, referente aos encargos da CRC, enquanto o governo federal aceitaria o pleito do governo do estado de abater R$119,5 milhões no montante que teria de pagar à União relativos aos encargos da dívida renegociada;
·                    Crescimento econômico: depois de amargar um longo período de estagnação econômica, a economia brasileira, beneficiada pelo boom da economia mundial no período 2003-2008, ingressou numa rota de firme expansão, disseminando seus efeitos por todo país e catapultando as receitas tributárias. Em Minas Gerais, a receita corrente líquida do governo do estado cresceu, em termos nominais, 132,2% entre 2002 e 2009, e, deflacionados pelo IGP-DI, 32,2% em termos reais. Ou seja, por um evevnto externo ao Choque de Gestão, o governo foi altamente beneficiado pela conjuntura econômica, o que lhe permitiu avançar mais rapidamente na melhora dos indicadores da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Por outro lado, enquanto a receita líquida do governo crescia nessa velocidade de cruzeiro, as despesas com o pessoal passaram a regredir, em termos reais, só retornando, em 2009, ao patamar que haviam atingido no último ano da administração Itamar Franco, como mostra a Tabela 4. Para isso, ao congelamento dos salários decretado, em 2003, pelo governo Aécio Neves, somaram-se subreajustes nos anos seguintes, combinados com a retirada/extinção de vários de seus direitos, sempre em nome do ajuste fiscal e da eficiência do Choque de Gestão. Ao lado das políticas sociais, notadamente a saúde e a educação, teria sido também o arrocho dos salários do funcionalismo público a grande fonte de ganhos para garantir o suposto sucesso do programa.

Tabela 4. Governo do estado de Minas Gerais: gasto com pessoal e receita corrente líquida: 2002-2009(Em R$ mil correntes)

Ano
Gasto com Pessoal
Receita Corrente Líquida
Valores nominais
Valores reais*
Valores nominais
Valores reais*
2002
9.163,6
16.076,4
12.542,0
22.003,3
2003
9.302,7
13.920,2
13.864,8
19.807,8
2004
9.710,0
12.680,2
16.696,0
21.803,1
2005
10.212,8
12.235,6
19.550,3
23.442,5
2006
11.860,0
13.967,4
22.083,4
26.007,3
2007
13.282,7
14.886,6
23.803,4
26.677,7
2008
15.883,2
16.003,9
29.242,5
29.464,7
2009
16.142,1
16.142,1
29.118,5
29.118,5
Variação (%): 09/2002

76,2

0,4

132,2

32,3

*Valores deflacionados pelo IGP-DI
Fonte: Secretaria da Fazenda do estado de MG

Não é de estranhar, nessa situação, que, na ausência de um ajuste estrutural das contas públicas, as finanças do governo de Minas tenham sido severamente fustigadas pela crise econômica de 2007-2008, que, como um rastilho de pólvora, se espalhou rapidamente pelo mundo e que deve continuar mantendo desaquecida a atividade econômica ainda por um longo período. E nem que sérias dificuldades para a gestão de suas finanças se avizinham rapidamente, cuja solução deve representar um grande desafio para o próximo governo. Entre essas dificuldades para a gestão das contas públicas, cabe apontar:

·          Pressão de gastos decorrentes do reajuste geral do funcionalismo público concedido pela administração Aécio Neves em abril deste ano, acrescido de um adicional de 10% para os servidores da educação, previsto para entrar em vigor em janeiro de 2011. Com relação Gastos com Pessoal/Receita Corrente Líquida (GP/RCL) batendo no piso prudencial estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o próximo governo poderá enfrentar dificuldades para administrar essa situação, a menos que a receita do governo seja premiada com um crescimento espetacular, o que não é muito provável num cenário de grandes incertezas na economia mundial;
·          Aumento de gastos que pode ser exigido para a área da saúde, caso aprovados os Projetos PLP 306/08 (e PLS 121/08) que regulamenta o que pode ser considerado efetivamente como “ações e serviços de saúde” para cálculo dos percentuais previstos na Emenda Constitucional n. 29/2000, já que atualmente, de acordo com o SIOPS/MS, o governo do estado aplica bem menos recursos do que os 12% exigidos pela lei;
·          O maior engessamento do orçamento que pode ocorrer devido a essas pressões coloca, assim, sérias dificuldades para o novo governo nele acomodar os projetos mais prioritários de sua administração. Estudo elaborado por Chevitarese (2009, p.125-6) confirma que mesmo no melhor ano do governo do primeiro mandato de Aécio Neves, em 2006, este só conseguiu contar com apenas 10% de “receitas livres”, dado o elevado grau de engessamento do orçamento, o que dá bem a dimensão de como essa questão pode piorar nos próximos anos;
·          Como o Choque de Gestão efetivamente não deu nenhuma solução para a dívida do estado, a qual, pelo contrário, continuou em trajetória de firme crescimento, o próximo governo não pode descuidar-se de buscar uma solução junto ao governo federal, renegociando suas condições, para impedir tanto que ela continue atuando como uma trava para as políticas públicas como para que seu custo não penalize excessivamente as gerações futuras.

3. O crescimento econômico: ficando para trás

A segunda pedra angular do Choque de Gestão foi o crescimento econômico. Apoiou-se da idéia-força de que, saneadas as contas do estado, o governo disporia de condições de investimentos para comandar as transformações da economia, modernizá-la e conduzi-la a um patamar superior ao alcançado em seu passado histórico. Um ambisioso programa de projetos estruturados foi divulgado com grande pompa para essa finalidade. Mas, ainda hoje, seusefeitos ainda não parecem ter se refletido na economia, pois essa continua ficando para trás na corrida que se trava entre os estados do país, como mostra a Tabela 5.

Tabela 5. Minas Gerias e Brasil: taxa de crescimento do PIB e participação de Minas no PIB brasileiro: 1995-2009
Ano
Taxa de crescimento do PIB (%)
PIB Minas/PIB Brasil
Minas
Brasil
1995
3,2
4,2
8,6
1996
3,7
2,2
8,8
1997
3,0
3,4
8,8
1998
-0,3
0,0
8,6
1999
0,1
0,3
8,4
2000
5,1
4,3
8,5
2001
-0,1
1,3
8,5
2002
3,7
2,7
8,6
2003
1,4
1,1
8,8
2004
5,9
5,7
9,1
2005
4,0
3,2
9,0
2006
3,9
4,0
9,1
2007
5,6
6,1
9,1
2008
5,9
5,1
9,1
2009
-2,7
-0,2
8,9
Média 1995-2009
2,79
2,87

Média 1999-2002
2,18
2,12

Média 2003-2009
3,37
3,55

Fonte; IBGE e Fundação João Pinheiro

Como se percebe de seu exame, mesmo contando com um ciclo de crescimento altamente favorável tanto da economia mundial como da brasileira, do período 2004-2008, condição que potencializa sua expansão, dadas as características de sua estrutura produtiva especializada na produção de bens intermediários e de commodities, ainda assim a economia mineira registrou uma taxa média anual, entre 2003 e 2009, de 3,37%, inferiorà verificada para o Brasil, que alcançou 3,49%. Uma tendência que vem se mantendo desde 1995: deste último ano, passado pelas administrações de Eduardo Azerede e Itamar Franco, até 2009, enquanto a economia nacional registrou uma taxa média anual de 2,94%, a de Minas situou-se em 2,75%.
Não surpreende, assim, que o Estado de Minas venha perdendo, gradativamente, importância no cenário nacional: atualmente ocupa apenas a terceira posição no ranking das economias estaduais, tendo perdido a segunda posição para o Rio de Janeiro. Sua participação relativa no PIB, que já esteve próxima de 9,5%, não passou em 2009 de 8,9%, conforme os dados daTabela 5, um nível equivalente ao que já detinha na década de 1990. Na produção agropecuária, em que manteve a liderança por muito tempo, foi ultrapassado por São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, ocupando, hoje, apenas o 4º lugar. Em termos de renda per capita, cabe-lhe apenas a 10ª posição no ranking dos estados brasileiros.
Mais grave continua sendo a distribuição extremamente desigual dos frutos deste crescimento: 199 municípios do estado (23,3% do total) geram um PIB per capita inferior a 30% da média brasileira; 533 municípios (62,5%), um PIB inferior a 50% da média registrada para o país. Não sem razão, o estado situa-se na 8ª colocação dos indicadores de concentração de renda do país, a mesma posição que detêm, entre os estados brasileiros, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
Regionalmente, a produção se encontra altamente concentrada em três macrorregiões, Central, Sul e Triângulo, que detêm 70% do PIB estadual, enquanto, juntas, as do Jequitinhonha e Mucuri, Noroeste e Norte de Minas chegam a 7,5%. Considerando apenas a produção industrial, essa distribuição ainda é mais desigual: enquanto as três primeiras regiões responderam por 75% do produto industrial, em 2007, a das três últimas não foi além de  5,1%. Uma realidade de que se tem notícia de que o Choque de Gestão tenha contribuído para modificar.